Do propósito à escala: carreira, impacto e os desafios de transformar o futuro do trabalho no Brasil, uma conversa com Roberta Piozzi
Conheça Roberta Piozzi, uma das lideranças que vêm conectando tecnologia, educação e impacto social no Brasil. Com mais de 20 anos de trajetória, ela atua na construção de iniciativas que unem empresas, governo e organizações para ampliar o acesso à formação digital e às oportunidades no mercado de tecnologia. Nesta entrevista, Roberta compartilha os momentos que marcaram sua carreira, os desafios da democratização digital no país e reflexões sobre liderança, inclusão e transformação em escala.
Edição WoMakersCode
Em entrevista, Roberta Piozzi compartilha decisões que marcaram sua trajetória, os bastidores de iniciativas que impactaram milhões de pessoas e os desafios reais para democratizar o acesso à tecnologia no país.
Em um país onde milhões ainda não têm acesso à educação digital, poucas lideranças conseguiram transformar essa urgência em impacto concreto. Roberta Piozzi é uma delas.
Com mais de duas décadas de experiência, ela construiu uma trajetória que conecta tecnologia, inovação e empregabilidade. À frente de parcerias na Brasscom e como cofundadora do Movimento Tech 2030, articula empresas, governos e organizações para preparar milhões de estudantes e profissionais para o futuro do trabalho.
Seu trabalho já alcançou mais de 3 milhões de pessoas, promovendo diversidade, inclusão e desenvolvimento sustentável. Mais do que falar sobre transformação digital, Roberta a coloca em prática, criando pontes reais entre tecnologia e impacto social.
Nesta entrevista, ela compartilha aprendizados da sua jornada, reflexões sobre inclusão produtiva e uma visão direta de quem está na linha de frente da transformação.
Muito além do LinkedIn
Roberta, você tem uma trajetória de mais de 20 anos conectando educação, tecnologia e empregabilidade. Olhando para trás, qual foi o momento em que você percebeu que queria atuar nessa interseção?
Quando penso na minha trajetória, entendo que ela tem uma construção bastante orgânica. Ela foi se formando ao longo das experiências que fui somando nos diferentes lugares por onde passei e nas relações que construí. Uma curiosidade que sempre deixa as pessoas boquiabertas é que minha primeira graduação foi em Desenho de Moda, um universo bem distante da minha atuação atual. O que me levou para o caminho da educação foi um trabalho voluntário na zona rural do interior de São Paulo, eu ia para uma fazenda acompanhar as crianças e jovens do projeto. Ali eu entendi que educação era algo com que eu poderia trabalhar e, de fato, fazer a diferença – era o propósito me encontrando. Eu não comecei olhando para tecnologia e empregabilidade, isso veio depois, atuei antes com muitas frentes: educação social, formação de professores, coletivos jovens, gestão pública e plataformas de educação. A partir de 2017, passei a enxergar a tecnologia como uma oportunidade real de aumento de renda para grupos sub-representados, e isso se consolidou quando recebi do iFood o desafio de liderar o compromisso público de formar e empregar 25 mil pessoas em tecnologia. Confesso que a dimensão dessa transformação ficou ainda mais clara para mim no programa em que contratamos 41 pessoas simultaneamente e demos essa notícia para todas ao mesmo tempo. Ficou muito claro para mim que tecnologia e emprego são ainda mais transformadores no aumento de renda e no impacto social. E agora na Brasscom posso fazer isso pensando no setor de tecnologia como um todo, é um desafio incrível.
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Se você tivesse que se descrever além do LinkedIn, quem é a Roberta hoje?
Preciso dizer que sou muitas! O LinkedIn é um pequeno recorte do meu lado e, no meu dia a dia, ele é uma ferramenta importante porque funciona como vitrine. Como minha estratégia de atuação principal é articulação e parcerias, essa presença é fundamental, estar ali faz diferença. Mas é claro, que eu tenho outros tantos papéis e responsabilidades, e para ser muito honesta, eu gosto de manter essas outras versões nas suas caixinhas. Existem pontos que, obviamente, se conectam com a Roberta do LinkedIn: estar presente, me importar com o outro, ter escuta, conversar e conectar pessoas, ideias e projetos para encontrar convergências e fazer as coisas acontecerem.
Os bastidores de quem conecta empresas, governo e impacto social
Sua carreira envolve grandes articulações com empresas, governo e terceiro setor. Qual foi o maior desafio de navegar entre esses diferentes mundos?
Navegar por todos esses espaços é um desafio diário. Diria que o maior é conseguir me comunicar de forma assertiva com cada um dos stakeholders, porque cada “mundo” tem linguagem, prioridades e tempos muito diferentes. No setor privado, em geral, existe mais urgência, metas de curto prazo e uma lógica de eficiência. No governo, os processos são mais complexos, há ciclos de gestão, exigências legais e uma necessidade grande de previsibilidade. Já no terceiro setor, muitas vezes a régua é o impacto social direto e a proximidade com o território, com recursos mais limitados e uma atenção enorme ao público atendido. O meu papel, no meio disso, é traduzir. É entender o que cada parte realmente precisa, onde estão os riscos, quais são as restrições e o que é inegociável para cada lado. A partir daí, construir um caminho comum com acordos claros, governança simples e metas que façam sentido para todos. E eu tento manter isso de um jeito bem transparente, com alinhamento desde o começo e acompanhamento ao longo do caminho, porque é isso que sustenta a confiança e evita ruído. No fim, quando essa comunicação funciona, a gente deixa de somar esforços de forma pontual e passa a trabalhar como rede, com mais escala e mais impacto para o país.
As decisões que mudaram sua trajetória
Agora, uma pergunta dupla: que decisões (ou momentos da sua vida) foram mais determinantes para você chegar onde está hoje? Tem algum “não” que você recebeu que mudou a sua trajetória?
Dois momentos foram fundamentais. Um eu já mencionei: o trabalho voluntário na zona rural, que me transportou para o universo da educação. O segundo foi um “momento confirmador” dessa história. Uma das minhas ex-chefes, ainda na época da moda, queria me indicar para uma posição de estilista em uma marca muito famosa. Mesmo sem emprego naquele momento, eu disse “não”, porque eu já trabalhava com educação, e não mais com moda. Esse foi o efetivo ponto de virada. E o “não” que mais me impulsionou foi não ter me tornado gerente em uma das organizações em que atuei, algo que eu desejava muito e para o qual eu sabia que estava pronta e tinha competência. Em determinado momento, entendi que isso não iria acontecer ali e fui buscar o meu caminho, fui atrás de outras oportunidades. No fim, essa decisão acabou me trazendo até aqui.
Você já impactou mais de 3 milhões de pessoas. O que muda na forma de pensar quando o impacto deixa de ser individual e passa a ser sistêmico?
Pensar em escala é um grande desafio. Às vezes, o projeto é incrível, mas não é viável de ser escalado, então essa conta precisa estar sempre no radar. Além disso, parcerias com o governo ou com entidades que já tenham escala e capilaridade são determinantes para alcançar números expressivos. Eu acredito muito, desde sempre, no poder do coletivo. Gosto, e é o que busco fazer, de pensar em como unir forças, otimizar recursos e escalar impacto. É desse lugar, inclusive, que nasce a minha atuação na Brasscom: coordenar e pensar, de forma sistêmica, formação e emprego no setor de TIC.
O que ainda impede a democratização digital no Brasil
Na sua visão, o que ainda está travando a democratização do aprendizado digital no Brasil?
Eu sempre digo que, hoje em dia, para ser cidadão no Brasil, é preciso ter letramento digital. Como acessar o Gov.br sem esse aprendizado? Mas essa é uma agenda complexa. Vou trazer três pontos prioritários aqui, mas não exaustivos: conectividade, formação de professores e currículo. O acesso à internet avançou, mas a desigualdade de qualidade ainda é grande, especialmente entre as populações mais vulneráveis. Mesmo quando há conectividade, muitas vezes ela é instável ou restrita ao uso do celular, o que limita a aprendizagem. Além disso, sem professores preparados para usar tecnologia com intencionalidade pedagógica, a transformação não acontece. E letramento digital não pode depender de iniciativas isoladas: precisa estar no currículo, virar material didático e chegar à sala de aula. O ponto central é que esses instrumentos já existem e muita coisa já está em curso, como a BNCC Computação, a Política Nacional de Educação Digital, a Política de Inovação Educação Conectada e a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas. O desafio é garantir que todas essas camadas funcionem juntas. Conectividade sem professor preparado não resolve. Currículo sem infraestrutura não se implementa. E formação sem conteúdo estruturado não se sustenta.
Se você pudesse influenciar uma decisão de política pública hoje, qual seria?
Se eu tivesse que escolher só uma coisa, seria a implementação prática da BNCC- Computação. A base precisa ser preparada desde cedo. Não dá para falar de futuro do trabalho, tecnologia e cidadania digital se os estudantes não desenvolvem, ao longo da escola, letramento digital, pensamento computacional e uma relação mais crítica e produtiva com a tecnologia. A diretriz já existe, a Computação como complemento à BNCC foi estabelecida pela Resolução CNE/CEB nº 1, de 4 de outubro de 2022. O que falta é virar realidade no chão da escola, com apoio às redes estaduais e municipais, formação de professores, materiais e infraestrutura mínima. Para mim, esse é o tipo de decisão que estrutura o resto, porque prepara uma geração inteira com mais repertório e mais autonomia para aprender, trabalhar e participar do mundo digital.
Liderança, influência e os aprendizados que ninguém conta
Liderar iniciativas com tantos stakeholders exige influência constante. Como você construiu essa capacidade?
Vou começar dizendo que não acredito que tenha uma receita de bolo aqui. Foram habilidades que fui desenvolvendo e que, naturalmente, foram acontecendo no meu processo formativo e no mercado de trabalho. Mas eu sempre tive esse olhar de que a forma de fazer e os resultados precisam ser positivos e benéficos para ambos os lados. Eu brinco que tem que ser “gostosinho”. Isso gera empatia e confiança, e as relações tendem a ser mais significativas, e não somente de interesses. O famoso ganha ganha.
Já teve momentos em que você precisou sustentar uma visão impopular? Como lidou com isso?
Não me recordo. A pauta de educação costuma ser bem acolhida, e essa é a sorte grande que eu tenho ao trabalhar com formação e desenvolvimento de talentos. E que fique claro: não estou dizendo que é fácil. Mas é uma agenda propositiva, então é raro eu precisar sustentar uma visão impopular nesse sentido.
O que você aprendeu sobre liderança que ninguém te contou no início da carreira?
Aprendi que a liderança tende a ficar mais solitária conforme você vai subindo a escada corporativa. Não é porque você não tem gente por perto, mas porque nem sempre você tem com quem dividir, de verdade, as dúvidas e as angústias de algumas decisões. Por isso, eu acredito muito em ter aliados. Gente em quem você confia, que te dá perspectiva, que te ajuda a pensar e que também te puxa para a realidade quando precisa. Ninguém sabe tudo, mas, às vezes, no LinkedIn parece que todo mundo está sempre certo, seguro, no controle. Na vida real, não é assim. Todo mundo tem momentos de vulnerabilidade, de insegurança e de desafio. E, para mim, poder falar sobre isso com aliados, pedir ajuda e não tentar carregar tudo sozinha faz toda a diferença.
O conselho que toda mulher precisa ouvir
E para terminar, se você pudesse dar o conselho mais valioso para as mulheres que nos leem agora, qual seria?
Meu conselho é uma provocação. Então eu te pergunto: o que você está fazendo hoje para chegar aonde quer chegar? Como está se preparando para as suas conquistas? Qual é o seu plano? Quem são suas aliadas? E sempre lembre de acreditar em você, acreditar no processo. E estudar sempre!
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